Prájnanam Brahman. Brahman é Consciência.
Aham Brahma'smi. Eu sou Brahman.
Tat Twam Asi. Tu és Isso.
Ayam Átma Brahman. Este Ser é o próprio Brahman.
Mahavákya
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
DE MITHYÁ PARA SATYA: VIAJANDO NO DISCERNIMENTO
DE MITHYÁ PARA SATYA: VIAJANDO NO DISCERNIMENTO
O nosso dia-a-dia é constantemente permeado por formas de conhecimento ilusórias, concepções que não assentam sobre um fim comum ou entendimento universalmente aceite. Estas concepções chegam a estar tão presentes nas nossas vidas que condicionam toda a nossa acção ao longo do dia. Tomemos como exemplo o “nascer do Sol”: o Sol “nasce” às 05h30m – 06h da manhã; a partir desse momento concebemos o momento ideal para o desenvolver de cada tarefa; às 08h tomamos o pequeno-almoço; às 09h as pessoas chegam aos seus trabalhos; às 13h chega a hora do almoço; voltamos para trabalhar às 15h; saímos do trabalho às 19h, e dirigimo-nos às próximas tarefas enquanto o Sol se “põe”, compras, cozinhar o jantar, sair com os amigos, e mais cedo ou mais tarde, chega a derradeira hora de ir dormir. Agora esclareçam-me uma coisa: que história é essa de que o Sol nasce todos os dias? Sendo uma estrela, o Sol teve com certeza um nascimento, mas se ele morresse e nascesse todos os dias, que seria da existência da Humanidade e de todo o sistema solar? Então e o Sol põe-se? Põe-se onde? Tanto quanto o conhecimento do espaço sideral nos permitiu até agora, o Sol é o uníco elemento deste sistema solar que não se movimenta (senão em torno de si mesmo), enquanto todos os outros astros orbitam em seu redor, e se assim é, então onde é que ele se põe? Por acaso muda de galáxia? A própria noção do tempo, o nosso horário solar organizou-se de acordo com esta concepção errónea de que o Sol nasce e se põe, e afinal, tudo não passa do movimento de rotação do planeta Terra em torno de si mesmo, e do movimento de translacção que este planeta tal como todos os outros neste sistema solar, efectua em redor do Sol. Estas verdades relativas, aparentemente inofensivas, acabam por influenciar toda a nossa forma de estar perante a vida e perante o entendimento que fazemos da nossa natureza e do universo. A esta forma de conhecimento ilusório damos o nome de mithyá.
O conceito mithyá tem 2 significados, sendo um destes “falso” ou “ausente de verdade”, e o outro indica “algo que depende de um outro algo para existir”. No que concerne às concepções erróneas que o ser humano desenvolve acerca da sua própria natureza, mithyá nasce do processo de identificação da pessoa com aquilo que ela não é, resultado da sua ignorância existencial.
O indivíduo identifica-se com as demais camadas ou atributos que o constituem como ser experiencial: ele identifica-se com o corpo físico e com as mudanças que se manifestam neste (Eu sou alto / sou baixo / sou magro / sou gordo / estou doente / dói-me o braço / dói-me a barriga). O corpo físico, ou annamayakosha, depende do alimento para existir, ele é de uma forma geral, uma modificação da própria comida. Assim, o annamaya não pode encerrar em si a essência que é o Ser (átmá), mas antes um revestimento deste Ser. Se o átmá é nityam, eterno sem princípio nem fim, o corpo não pode ser o átmá porque o corpo não existe antes do seu nascimento nem depois da sua morte.
A pessoa identifica-se também com o corpo prânico, ou pránamayakosha (Eu sou forte / sou fraco / tenho fome / estou cansado / sou o ar que respiro). O prána, energia vital, torna o corpo físico vivo, está presente em cada célula, e é pela sua presença que o corpo empreende em toda e qualquer actividade física ou mental. O prána também não pode ser o átmá porque o prána é uma modificação do ar, entrando e saindo do corpo, vem e vai, e ao mesmo tempo, está sempre dependente da quantidade disponível de oxigénio.
O complexo mental, ou manomayakosha, é também objecto de identificação por parte do homem. Pelo manomaya se desenvolve a noção do “Eu”, “meu”, ou “mim”. Esta camada permeia a camada prânica, e é constituída pelos orgãos dos sentidos (jñanendrya) e pela mente (manas). Esta camada representa as modificações na mente, está sujeita a mudança a todo o tempo, ela é a causa para a divisão (vikalpa) aparente do indivíduo (jívátmá) com o Ser absoluto (paramátma). Ao identificar-se com o corpo, a mente superimpõe os atributos do corpo sobre o átmá. Aqui tem origem a dualidade existencial em termos de nomes e formas. Quanto a isto, refere a Bhagavad-Gita: “Indivisível, parece dividir-se em formas e seres distintos. Sustentáculo de todas as criaturas, é o que as engedra e devora.” (XIII: 16).
Tal como a mente se compõe de pensamentos, ou vrrtis, as emoções também são integralmente vrttis. Na mente também se encontra o vijñanamayakosha, a camada onde ocorrem as actividades intelectuais e intuitivas, e esta é também composta por vrttis. Os vrttis estão em constante movimento, e apesar do vijñanamaya ser responsável pela cognição, apesar de ser aquele que se entende como o agente ou actor (kartá) e o manomaya ser apenas um instrumento (karana), os seus papéis invertem-se devido à velocidade vertiginosa das vrttis na mente e na emoção. E por esta razão a pessoa entende-se como sendo o pensamento ou a emoção (eu sou isto, aquilo é uma árvore, esta blusa é minha, eu estou triste, eu estou contente).
O manomaya (atributo mental) tem na sua essência o sofrimento, ou duhkha, como reflexo da dualidade presente no ego (ahamkára), assim é de natureza sofredora, ou duhkha svarúpa (eu estou triste, eu estou frustrado, eu sou incompleto). A mente também passa por um processo de identificação com a felicidade (sukham), mas de facto, esta manifestação de felicidade tem origem no ánandamayakosha, camada da felicidade suprema (eu estou feliz, estou contente, estou satisfeito). Sendo passível de observação, o manomaya também não poder ser o paramátmá porque todo o pensamento tem um princípio e um fim, e está sujeito a mudança, e assim torna-se um objecto de percepção (drshya). O Ser é aquele que percebe (drashta), o que observa, e não o objecto percebido.
As experiências de sukha e duhkha pertencem ao vijñanamaya. Se este atributo se vê como o actor (kartá) das experiências, então ele é com certeza aquele que disfruta (bhokta) também dos frutos da sua acção, apesar das experiências de sukha pertencerem ao ánandamaya.
O ánandamaya é constituído por vrttis “especiais” de origem tamásica, contemplativas e inertes, mas com predominância sátvica, iluminada e inteligente. No entanto, este kosha actua como um reflexo de ánanda, uma característica natural ao átmá exclusivamente porque o Ser é o único que é sem limites, total e pleno, este é o significando de ánanda. “Aquele cujo coração não se atém às impressões exteriores descobre em si mesmo a felicidade. Em união com Brahman, através do Yoga, desfruta da perpétua plenitude” (Bhagavad – Gita, V.21).
Todos os koshas que revestem o átmá não são outra coisa que não manifestações do átmá, mas o átmá não é nenhum destes. Todos estes atributos são superimpostos ao Ser. Estas noções são universais porque a ignorância da verdadeira natureza do Ser (satcitánanda svarúpa) é também universal. Esta associação ilusória do Ser aos demais koshas dá-se porque átmá “empresta” a sua existência e consciência a estes atributos, mas esta associação não pode ser real porque átmá é asanga, puro a todos os níveis. Quem experiencia as acções e os frutos desta são os koshas, estes são os agentes (kartá) e quem desfruta dos resultados (bhokta). Por isso mesmo, átmá é satya, a realidade, e as demais manifestações que este assumiu no universo são mithyá quando entendidas como a derradeira realidade. Átmá é nityam, eterno, sem princípio nem fim e presente em tudo o que existe, no entanto, tudo o que se manifesta de Si na natureza é efémero, e não pode desta forma encerrar nas manifestações a essência que é o Ser.
Mantendo uma atitude inquisitiva e equanime perante o que é experienciado percebemos o conhecimento de que o átmá é o único que não pode ser negado (sakshi) pois Ele é satcitánanda svarúpa, Ele é a realidade e a consciência, é o conhecimento, e a plenitude sem limites. Então, se eu existo, e tenho conhecimento de que existo, eu existo assim sem as limitações suscitadas pela ignorância e removidas por este conhecimento. O corpo não é o átmá, o prána não é o átmá, a mente não é o átmá, as emoções também não O são. Este é o discernimento que se obtém do conhecimento na natureza do Ser, como tal, a minha própria natureza é verdadeiramente sakshi, eu sou a consciência testemunha na forma de conhecimento (bodha), só isso permanece invariável.
Se o átmá é satya, verdadeiro, e deste tudo se manifesta, então devemos compreender que mithyá depende deste também. O reconhecimento do que é falso só pode ser atingido se conhecermos o que é verdadeiro. Mithyá é uma forma de conhecimento que não revela na sua essência a totalidade do átmá, e estando esta característica ausente, é então falso afirmar que os koshas são o átmá, esta crença é mithyá. A escuridão não existe, existe antes a ausência da luz; o frio não existe, existe sim a ausência do calor. Não pode haver nada onde nada havia. Toda a criação vem do Ser. Mithyá não pode ser considerada independente, ela cumpre uma função prática mas é ilusória quanto à compreensão da natureza do Ser. Todos os koshas dependem da auto-efulgência do Ser, qualquer objecto que quando observado comprova a sua dependência de outro objecto, isso é mithyá.
Para tentarmos compreender estas questões de uma maneira que nos seja familiar, convido-vos a reportarem este conhecimento para a vossa prática de yoga. Passarei então a exemplicar algumas situações simples e recorrentes na sala de prática:
é muito frequente identificarmo-nos com o corpo físico (annamaya) na nossa prática de yoga. A atracção pela estética do ásana (postura física), o culto do físico, ou a busca de um estado de saúde física e flexibilidade, que é manifestada por alguns praticantes, não pode ser entendido como o objectivo último a que se propõe a prática yoguica. Sendo o corpo físico dependente de alimento e sujeito a mudanças, identificarmo-nos com os resultados que são fruto da prática é mithyá;
outro processo que acontece com frequência é a identificação com o prána (energia vital). Na prática de kundalini yoga o praticante pode vir a identificar-se com a energia desperta no kanda (base da coluna) e que agora flui pelo sushumna nadi (canal subtil central que flui pela coluna vertebral), alimentando todo o corpo com uma experiência fisicamente extática. Na prática de pránáyáma (técnicas respiratórias) igualmente, alguns praticantes identificam-se com o aumento do fluxo de prána, ou com o calor que se gera pelo corpo. Isto é também mithyá;
Quando chegamos demasiado mentais na prática, com o ego conduzindo a nossa atitude, procurando reproduzir aquelas técnicas que nos enaltecem o ego, aquele ásana mais elaborado, mesmo que nesse dia o corpo não esteja disponível para tal experiência, ou tentar reproduzir o entendimento a que cheguei durante a última meditação e debatemo-nos om o brilho do intelecto sendo ofuscado pelo desejo do ego. O apego ao sucesso, o desejo de repetição de experiências, a frustração que ocorre quando os objectivos estabelecidos para a prática não são cumpridos, a identificação com estes resultados por parte do praticante é mithyá;
quando o praticante se identifica com o fruto da sua acção na prática de yoga, esse conhecimento é mithyá. O acto de testemunhar a prática não deve estar sujeito a apego ou aversão. Chegam a haver aqueles praticantes que ficam apegados à própria ideia do desapego ou à renúncia da vida no plano da natureza manifestada. Queremos repetir aquelas técnicas que desenvolvemos prazerosamente e evitar as outras que temos maior dificuldade, que exigem maior esforço de nós, que tornam a mente mais activa e instável. Isto é fruto da identificação com este kosha (vijñanamaya). “O Yogi que tem comando sobre a mente e, recolhido em si mesmo, pratica o Yoga, é como uma chama luminosa que, ao abrigo do vento, não sofre nenhuma oscilação.” (B. G., VI: 19);
a prática de pránáyáma desperta por vezes no praticante um estado de euforia. A meditação (dhyána) pode resultar numa experiência ou sensação de paz, entendimento, equilibrio emocional, ou felicidade. O relaxamento obtido no yoga nidrá (relaxamento profundo, o sono do Yoga) traz uma enorme sensação de satisfação ao praticante. Ao abordar a prática com o fim último de realizar estes efeitos pelas técnicas é fruto da ilusão de se acreditar que o ánandamaya enaltecido pela prática é o próprio átmá, e isso é mithyá. “Os yogis executam seus actos exclusivamente com o corpo, pensamento, intelecto e mesmo com os simples sentidos, sem abrigar identificação co quaisquer desejos, a fim de purificar o coração.” (B.G., V:11).
Como podemos perceber através destas citações da Bhagavad-Gita acima apresentadas, existe uma atitude yogica a cultivar na nossa prática,uma atitude reflexiva (niddidhyásana), uma atitude de negação da identificação com o objectificável, e de identificação com aquele que observa, o átmá. Essa atitude propõe-se ser desapegada (vairagya) da técnica ou dos resultados advindos desta, devemos para tal dedicar-nos à prática de Íshvara pranidhana, oferecendo o fruto da nossa acção à consciência que tudo testemunha. “Quem age sem o menor apego, dedicando suas acções a Brahman, não sofre com o erro, da mesma forma que a água não adere à folha do lótus.” (B.G., V10). Abordar a prática com viveka (discernimento) leva-nos à aceitação desta entendendo a plenitude em qualquer manifestação observada.
Se o praticante mantém o foco no conhecimento do átmá, ele compreende que o objectivo último da prática do yoga é exclusivamente moksha, é romper com os condicionamentos que resultam da identificação com o que é observável e sujeito a mudança, é aceitar a sua liberdade com naturalidade porque entende a plenitude em qualquer experiência. Sabemos que o foco é por demais importante para viver na experiência de moksha, mas este vem e vai, sempre em viagem, e assim nos deparamos nesta constante viagem de mithyá para satya, e vice-versa. Várias são as direcções que se apresentam ao yogi, muitos são aqueles que não chegam à meta a que se propõem, fica o convite então para que sigamos o caminho do meio com equanimidade (upekshanam), apanhamos boleia do discernimento, e que assim possamos perceber que o mais importante desta viagem não está em chegar ao fim último, ou até, regressar à casa de partida, mas sim desfrutar de uma boa viagem. Namasté!
sábado, 8 de janeiro de 2011
ORAÇÃO VÉDICA PARA O RACIOCÍNIO E MEMÓRIA
Este artigo surge como resposta a um comentário anónimo feito aqui no blog. O autor do comentário solicitava-me que lhe ensinasse um mantra que o ajudasse a melhorar a sua memória. Não tendo o contacto deste comentador anónimo, resta-me então publicar aqui a resposta ao seu pedido, e deixar a chamada de atenção que os comentários anónimos e sem contacto correm o risco de não ver as suas questões atendidas.
Decidi então escrever este artigo como esclarecimento à questão que me foi apresentada.
Quando me deparei com a questão, fiquei com a sensação de que este/a comentador/a anónimo/a entendia pessoalmente o mantra como uma forma de "encantamento": o praticante repete esta prece "mágica" umas quantas vezes e o efeito desejado acontece. De acordo com a minha experiência pessoal com a prática de mantra não partilho desse entendimento, aliás, acredito que desse ponto de vista o melhor que o praticante iria alcançar era a memorização do mantra e não do verdadeiro conhecimento que este transmite.
Entoar mantra é invocar os mais distintos aspectos do divino, Íshvara (o Senhor), sob o nome ou forma mais adequado para cada um invocar o indescritível, o inominável, o inantingível. Entoar mantra (prece/oração) revela o intelecto humano, permite ao praticante sentir-se um ser completo, adequado, pela via da identificação com o Ser Absoluto, Íshvara. O mantra revela satisfação no praticante face aos esforços por este empreendidos, face às limitações e condicionamentos que cada um encontra pessoalmente a nível físico, cognitivo, emocional, espiritual, ou ainda de tempo, espaço, estrato social, religião, cultura, educação, recursos, e tudo quanto possa fazer o indivíduo sentir-se infeliz, inadequado, deficiente. O mantra completa o esforço do indivíduo. Ao praticar mantra, o indivíduo obtém como resultado a graça, este entende a glória divina em todas as suas realizações, capacidades e respectivas limitações.
É neste entendimento que transmito então este mantra védico para desenvolver a acuidade mental, o raciocínio e a memória. Esta oração foi extraída do livro Orações Milenares: Vivendo com Inteligência, de Glória Arieira, professora de Vedanta e Sânscrito, discipula de Swami Dayanada Saraswati (para mais informação sobre a Glória e seu ensinamento, não deixe de visitar o seu site em www.vidyamandir.org.br). Bom proveito:
medhám ma indro dadátu
medhám devi sarasvati
medhám me ashviná-
vubhávádhattám puskarasrajau
Que o Senhor me dê a capacidade de pensar e memória.
Que a Deusa Sarasvati me abençoe com raciocínio claro e memória.
Que a luz que ilumina o universo ilumine meu intelecto.
Para concluir este artigo, permito-me mencionar aqui outras técnicas auxiliares ao mantra para o praticante realmente atingir a transformação que procura para si, e neste caso em particular, para desenvolver a memória.
Se por entoar mantra alcançamos o entendimento necessário para desenvolver a aceitação da nossa natureza e o discernimento da realidade para objectificar a transformação almejada, será importante que este conhecimento seja praticado não somente pelo intelecto, mas em toda a acção diária do indivíduo.
Neste sentido, existem técnicas como Yoga Nidra que funcionam como um meio para desenvolver o acesso consciente à informação trabalhada pelo indivíduo, e desta forma aumentar as suas funções de memória e de capacidade de aprendizagem. Existem dois factores envolvidos no processo de memorização: o primeiroo, é a capacidade do cérebro de absorver informação; o segundo, é a capacidade que o cérebro tem de posteriormente rebuscar essa informação na memória. O Yoga Nidra trabalha ambos factores estabelecendo um estado de máxima receptividade na mente subconsciente em simultâneo com um estado de alerta/vigília/concentração.
Esta é uma técnica de relaxamento profundo auxiliada por mentalizações/visualizações descritas pelo instrutor, sendo desenvolvida no praticante a faculdade da audição (ou quando o praticante já tem domínio sobre a técnica pode também fazê-la através da auto-sugestão). A audição cria um registo contínuo de cada som escutado no cortex cerebral, ficando armazenado nos seus vastos bancos de memória. Aqui encontram-se latentes e inacessíveis, a não ser que encontremos uma forma de rebuscá-los para o presente. O método para tal é criar um estímulo apropriado durante o estado de consciência ordinária, desperto e vigilante. Por exemplo: um adulto que através de uma melodia acede a um turbilhão de memórias já esquecidas sobre a sua infância.
Para reforçar a técnica de Yoga Nidra, podemos arranjar estímulos que nos ajudem posteriormente a aceder à informação. Por exemplo: se é uma daquelas pessoas que normalmente esquece os nomes das outras pessoas, comece por criar uma relação com o nome. Use os seus sentidos percepcionais e associe informação ao nome: Maria - olhos verdes - blusa amarela - voz rouca - professora de música, etc., todo e qualquer estímulo que auxilie a memória a reconstruir a situação em que tomou conhecimento do nome, e desta forma, a rebuscá-lo na memória. Este exemplo serve para todo o tipo de situação: nomes de pessoas, terras, datas, compromissos, matéria de estudo para a escola, projectos de trabalho, etc.
Ao final de cada dia, dedique um momento antes de dormir, entre 5 a 10 minutos (e com a prática decide se depois aumenta o tempo) para se deitar relaxado, de costas, e de olhos fechados, partir da consciência do momento presente e mentalmente retroceder passo a passo relembrando cada acção decorrida ao longo do dia, com todos os pormenores que conseguir incluir, até chegar à consciência do momento em que havia despertado nesse dia. Cada vez que a mente se distrair, volte ao ponto em que tem memória de ter parado. Se recorrentemente voltar a distrair-se, comece tudo do início. Com tempo e prática, retroceda mentalmente 2 dias, 3, 5, uma semana, duas, um mês, 1 ano, 10 anos, 20, 50, 100, 500, 1000 anos, retroceda até à pré-história, até ao início da vida no planeta, até à origem do próprio universo ou mesmo até ao momento anterior a isso.
Para mais informações acerca das técnicas de Yoga Nidra, informe-se junto do seu mestre ou então consulte o trabalho de Swami Satyananda Saraswati, que desenvolveu imenso conhecimento sobre esta técnica.
Acredito que se aliar esta atitude no seu comportamento à prática de mantra conseguirá certamente alumiar o seu intelecto e avivar a sua memória.
Bom estudo e boas práticas!
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
AS BUSCAS HUMANAS (6) - A ORIGEM DA ÉTICA: O SENSO-COMUM
A pessoa descobre a origem dos valores éticos pela observação de como a pessoa gostaria que os outros se comportassem em relação a si. Os valores éticos são baseados na apreciação do senso-comum de como a pessoa gostaria de ser tratada.
Não quero que os outros sejam trapaceiros (nem por outro meio desagradável) com o propósito de afastar-me daquilo que quero; portanto não enganar torna-se um valor a observar relativamente aos outros mesmo quando eu persigo os meus fins. Os fins e os meios que eu quero (ou não quero) que os outros escolham por causa da forma que as suas escolhas me afectam estabelecem um padrão pelo qual eu julgo a propriedade dos objectivos e meios que escolho para mim - um padrão que tem em consideração o impacto das minhas escolhas sobre os outros. Tais valores incorporam a ética do senso-comum, que são reconhecidas e confirmadas escripturalmente numa doutrina ética mais compreensiva - de natureza religiosa - denominada dharma.
Extraído do livro Introduction to Vedanta, de Swami Dayananda Saraswati. Traduzido por Ricardo Viegas.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
AS BUSCAS HUMANAS (5) - OS ANIMAIS NÃO PRECISAM DE ÉTICA
Para os animais não se levantam questões de ética. Eles têm pouca escolha não-programada sobre a acção. As acções controladas pelo instinto, que não estão sujeitas a escolha, não criam problemas éticos. A vaca não acresce mérito por ser vegetariana nem o tigre acresce demérito por comer a vaca.
Por outro lado, o ser humano com a sua capacidade de escolha tem de escolher primeiro o fim que pretende alcançar e de seguida os meios para conquistar esse fim. Particularmente nas sociedades ocidentais, exercitamos o nosso poder de escolha sobre os nossos fins, numa permuta infindável de variedade: na comida, roupa, estilo de vida, etc. "Á minha maneira!" apregoa esta individualidade. Também no ocidente, depois parece anexar-se um valor à escolha que é rotulado de "espontâneo", mas que é realmente impulsivo. É bom que existam tantos meios e fins diferentes para escolher; permite uma colagem colorida. No entanto, a escolha impulsiva, ou a escolha dos meios simplesmente porque são fáceis e convenientes, podem resultar no atropelamento do nosso semelhante, destruindo a sua segurança e causando-lhe sofrimento.
Extraído de Introduction to Vedanta, de Swami Dayananda Saraswati. Traduzido por Ricardo Viegas
AS BUSCAS HUMANAS (4) - A ESCOLHA HUMANA REQUER PADRÕES ESPECIAIS
Porque a luta por segurança, artha, e pelos prazeres, káma, não é instintivamente controlada mas antes guiada por valores pessoais variáveis, torna-se necessário para a sociedade humana ter um conjunto de padrões que seja independente de quaisquer valores subjectivos individuais que determinem os seus gostos e desagrados.
Uma vez que eu tenho a faculdade de escolha, eu devo ter determinadas normas para controlar as minhas variadas acções, Karma. Não sendo pré-programado, para mim o fim não pode justificar os meios. Não somente o fim escolhido deve ser admissível, mas os meios para atingir esse fim devem também estar em conformidade com determinados valores. Este grupo especial de valores que controla a escolha individual para a acção é chamado de ética. A luta humana pela segurança e pelo prazer, artha and káma, devem de estar de acordo com uma escolha ética. Os padrões éticos conduzem a pessoa para o reconhecimento das necessidades dos seus semelhantes. Na escolha dos meios para alcançar aquilo que pretendo alcançar, também devo ter em consideração as necessidades dos meus semelhantes. Se estiver indiferente às suas necessidades, não poderei usar o meu semelhante como um objecto para alcançar os meus fins. Tenho de valorizar as suas necessidades tal como valorizo as minhas.
Extraído do livro Introduction to Vedanta, de Swami Dayananda Saraswati, traduzido e adaptado por Ricardo Viegas.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
ÁTMA VICHÁRA - A MEDITAÇÃO NO SER DE RÁMANA MAHARSHI
Esta técnica é a que melhor exemplifica o Jñána Yoga, o Yoga do conhecimento verdadeiro. Átma vichára é o questionamento sobre a natureza real da alma. Esta técnica tem como objectivo eliminar as falsas ideias sobre o Eu e o ego, e nos ensinar a separar o espactador do espectáculo, a consciência que vê do que é visto.
Quem sou eu, que não sou este corpo?
Sou o ser (que é imaterial, imutável e imperecível).
Quem sou eu, que não sou esta mente que pensa?
Sou o ser (que é serenidade e paz).
Quem sou eu, que não sou os cinco sentidos?
Sou o ser (que é silêncio e comunhão).
Quem sou eu, que não sou as emoções?
Sou o ser (que é ponderação e equilíbrio).
Quem sou eu, que não sou sensações?
Sou o ser (que é satisfação).
Quem sou eu, que não sou desejo, necessidade, vontade?
Sou o ser (que é plenitude).
Quem sou eu, que não sou passado, presente e nem futuro?
Sou o ser (que é intemporal, eterno).
Quem sou eu, que não sou ego, personalidade?
Sou o ser (que é tudo).
Quem sou eu, que não sou os papéis que represento?
Sou o ser (que é a verdadeira natureza, a verdadeira identidade).
Quem sou eu, que não sou orgulho e vaidade?
Sou o ser (que é simplicidade).
Quem sou eu, que não sou insegurança e medo?
Sou o ser (que é luz).
Extraído do livro Guia de Meditação, de Pedro Kupfer.
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